DJ Muro e a Gramática do Disco
Para entender o DJ Muro, é preciso resistir ao hábito ocidental de interpretar a busca por discos raros como consumo obsessivo ou exibição de status. Na prática de Muro, o acúmulo de discos nunca foi o objetivo. O objetivo era o conhecimento. Considere uma cópia de *Is It Because I'm Black* de Syl Johnson, pela Twinight Records (Twinight 1037, prensada em Chicago, 1970): o tipo de disco que você encontra virado em uma caixa de quinquilharias em Shimokitazawa, com a capa danificada pela água em um canto, a tinta do selo levemente amarelada por quatro décadas em um armazém sem controle de clima. Segure esse disco e você já está dentro de um argumento. A pausa da bateria na faixa-título — engenhada por Don Davis no estúdio Tera Shirma, em Detroit — ocupa um espaço estreito, quase sem ar, que uma relançamento posterior nunca replica exatamente, porque os stampeiros originais da Twinight foram cortados com uma profundidade de sulco mais rasa, dando à caixa um estalo comprimido em vez de uma expansão. Muro entendia isso. Esse entendimento não era transferível por um link de streaming ou uma entrada de discografia. Vinha de segurar o disco, ler as gravações da matriz no sulco de saída e sentir a diferença.
A assinatura sonora que Muro desenvolveu ao longo de seu trabalho de produção e suas mixtapes é diretamente inspirada por materiais de origem como este. Pegue a abertura de *King of Diggin' Vol. 2* (2001): o sample central da primeira transição é retirado de *Power of Soul* de Idris Muhammad, pela Kudu Records (Kudu KU-14, 1974), uma subsidiária da CTI. Na prensagem original da Kudu, a masterização de Rudy Van Gelder dá ao Rhodes uma presença física — ligeiramente à frente na mixagem, com as frequências médias-graves posicionadas logo acima do bumbo — que desaparece no licenciamento da King Records japonesa (King GP-3071). Caçar esse original da Kudu é, por si só, uma aula de geografia fonográfica. Nas lojas de discos japonesas, os licenciamentos da King são quase universalmente arquivados sob o nome CTI, e não Kudu, porque os distribuidores japoneses unificaram ambos os selos em um único catálogo. Se você quiser o original de Van Gelder, é preciso pegar cada capa da série GP e verificar a contracapa pelo endereço de Englewood Cliffs; se constar uma prensagem de Tóquio, devolva. Essa verificação de dois segundos na caixa é exatamente o tipo de conhecimento processual que o trabalho de Muro codifica.
O argumento da tradução cultural que cerca Muro — a afirmação de que os "cavadores" japoneses ouviram a música negra americana com um tipo de reverência que o mercado doméstico havia perdido — é real, mas requer precisão para evitar condescendência. O que Muro e seus colegas herdaram não foi uma escuta mais pura ou mais inocente. Foi uma infraestrutura de atenção diferente. Lojas de discos como as seções de soul e funk da Disk Union em Shinjuku criaram um ambiente onde o encarte era tratado como texto principal, onde o número de matriz era uma ferramenta de pesquisa e não um mero detalhe, e onde um compacto da Twinight era corretamente precificado acima de uma reedição da King porque a equipe havia feito o trabalho. Essa infraestrutura produziu ouvintes que conseguiam perceber a diferença entre um original de Syl Johnson e sua reedição. A reverência, tal como era, era técnica antes de ser emocional.
As fitas de Muro são também documentos de um momento particular na história dessa infraestrutura. A série de cassetes King Collection, que circulou ao longo dos anos 1990 pelo selo King Records Japan, chegou a lojas de importação em Nova York e Londres em pequenas quantidades. Encontrar uma fita original da King Collection em uma caixa fora do Japão é um evento menor. As lombadas são impressas em uma sans-serif condensada que desbota até a quase ilegibilidade em cópias tocadas; os encartes (J-cards) são finos o suficiente para rachar ao longo da dobra. Se você encontrar uma cópia de *King of Diggin'* com um J-card limpo, sem rachaduras e uma lombada que ainda pode ler, ela saiu de uma coleção que foi armazenada com cuidado — o que geralmente significa que veio de um colecionador sério, e não de um excedente de loja, e o resto dessa coleção vale o seu tempo.
Situar Muro dentro de uma linhagem não é diminuí-lo. Os garimpeiros que o precederam — os importadores e colecionadores que construíram o mercado de soul de segunda mão em Tóquio e Osaka durante as décadas de 1970 e 1980 — criaram as condições para sua fluência. O que Muro acrescentou foi a decisão de tornar essa fluência pública, de colocar a pesquisa na própria mixagem, de modo que o ouvinte casual fosse implicado na arqueologia, soubesse disso ou não. O groove naquela prensagem da Twinight não se explica sozinho. O arranjo que Muro faz dele dentro de uma mixtape explica. Esse é o trabalho: não a posse do disco, mas a gramática que você constrói ao acumular quantidade suficiente deles.
Compartilhar
Entre para participar da conversa. Entrar
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a opinar.







